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  Discurso de Posse do Governador

DISCURSO DE POSSE DO GOVERNADOR ELEITO
DA PARAÍBA, CÁSSIO CUNHA LIMA
01/01/2003

Paraibanos amigos,

Ontem foi o último dia de perseguição política na Paraíba. Hoje será para nós o primeiro dia de um gratificante reencontro. Esse dia da confraternização universal marcará a nossa reunificação: a Paraíba a partir de agora terá de novo 223 municípios. O mapa de nosso Estado será recomposto, com a reintegração das cidades alijadas pela retaliação e discriminadas pela intolerância.

Por meu passado e por meu futuro, diante da Paraíba e da história, eu lhes garanto: o Governo que nesse instante começa jamais pedirá a nenhum paraibano atestado de filiação partidária, muito menos provas de submissão política ou de alinhamentos compulsórios. O governo buscará apoios e procurará aliados, mas a ninguém fará refém de sua intolerância, muito menos escravo de sua prepotência. Paraíba, acabou o medo, de novo a liberdade. Paraibanos, acabou a servidão, de novo a independência.

Assumo o governo do Estado com a plena consciência de que as urnas me delegam não um poder absoluto ou autocrático, mas a responsabilidade de um serviço. As urnas me conferem um mandato que não é absoluto em sua legitimidade, e que a cada dia é preciso confirmar através da participação constante e do diálogo permanente. Mais ainda, o mandato público, como o próprio poder, só se legitima pela capacidade de
servir e não pela arrogância de mandar, de retaliar e perseguir, de ameaçar ou confiscar.

Governarei para todos, mas com a consciência clara de que, entre todos, há os que já não têm sequer tempo a conceder: exigem urgência de soluções na emergência de seus clamores.

Este não será um governo de grupos fechados ou de estruturas voltadas para suas próprias entranhas, mas de transparentes compromissos com a cidadania e de busca permanente do diálogo e da negociação, em que todos cedam para que todos avancem.

Conversar e dialogar com o servidor, com o policial-militar ou com o professor universitário em greve não diminui o Administrador público: apenas lhe lembra que o Governo é mero prestador de serviços essenciais e mediador de conflitos sociais. E como, além de Deus, ninguém pode ter a onisciência, todos devem ter a tolerância.

Chegamos ao Governo com as alianças que transparentemente assumimos na campanha, em torno de programas claros e definidos. A Paraíba as aprovou nas urnas, em nome da governabilidade. Essa será,portanto, uma administração programática, não partidária. Mais que um partido, a Paraíba elegeu um programa administrativo e uma esperança de futuro. Na Paraíba de hoje, a esperança tem um nome: cidadania. E pelo menos três sobrenomes: emprego, emprego e emprego.

Essas são as prioridades absolutas que a rua ditou e que agora são nossas. Tenho a humildade de reconhecer, afinal, que sou apenas porta-voz dos sonhos de meu povo e estuário das esperanças de minha terra.

A ninguém nesse Governo será permitido repetir o equívoco de um presidente da República que chegou a disser que o Brasil ia bem, mas o povo ia mal: nenhum país, nenhum Estado, pode jamais se sentir bem, a não ser com o bem-estar integral e o pleno desenvolvimento social.

Esse governo medirá o acerto de suas políticas e ações não por sacos de cimento concretados, mas pela geração de empregos, que infelizmente temos perdido nos últimos anos, e pela melhoria da qualidade de vida da nossa gente. Nossos parâmetros serão as conquistas contra a miséria, particularmente contra a fome e contra a sede, e na melhoria da distribuição de renda, que na Paraíba vergonhosamente, é das mais concentradas do Brasil e do mundo.

Tanto recuamos em indicadores sociais que conquistas como vaga na escola pública, fardamento e material escolar parecem tão remotas quanto o último governo que as garantiu, há longínquos oito anos.

A Paraíba vendeu seu patrimônio, mas nem reduziu suas dívidas nem capitalizou o futuro: o IPEP é hoje a mais indevassável caixa-preta do Estado e a mais pesada hipoteca sobre o futuro do servidor e do próprio governo. Do IPEP pouco se sabe, a não ser que está falido.

Chegará o dia, tenho esperança, em que para conhecer as ações de governo, nenhum paraibano precise ligar a televisão, pois as sentirá em sua própria casa. A Paraíba terá 3 milhões de habitantes, que esse Governo não verá apenas como pagadores de impostos antecipados, mas como cidadãos, credores de serviços essenciais e de direitos elementares, inclusive do maior deles: o direito à esperança e a uma perspectiva concreta de futuro. Um governo que não existe para a totalidade dos cidadãos não é governo: é apenas instrumento de consolidação de privilégios e perpetuação de injustiças.

Não imaginem que alimento a presunção de que, em quatro anos, poderemos vencer todos os problemas da Paraíba, mas até as caminhadas mais longas se iniciam com um único passo. Não importa que nos acusem de utópicos, jamais deixarei de sonhar. Não importa que nos apontem as dificuldades, jamais deixarei de ousar. Espero em Deus que esse governo jamais cometa o erro da omissão.O que depende de nós, a gente faz. O que depende dos outros,a gente cobra. O possível, a gente realiza. O impossível, a gente tenta.

Sozinho, qualquer governo pouco poderá fazer. Buscaremos parcerias com as ONG's, com o empresariado, com as igrejas, sindicatos e com o movimento social, sempre na perspectiva programática de que nenhum Estado poderá ser maior que a sociedade. Esse Governo terá alegria e orgulho em dividir com a sociedade todos os êxitos de suas ações. O sucesso se reparte. Autoridade se delega, e vamos delegá-la, mas
responsabilidades não se transferem. Com humildade, com muita humildade, mas com muita convicção e determinação, assumo todas as responsabilidades que a Paraíba me confiou.

Ninguém saberá, a essa altura, que dificuldades tais e tantas se encontrarão à frente, mas a ninguém será lícito imaginar que não sejam até maiores do que se poderá supor.Ninguém perderá em lamentações o tempo precioso de apresentar proposições. De pouco ou nada valerá dimensionar os problemas que nos aprontaram, se não soubermos apontar os caminhos que os superarão.

Jamais, no entanto, será demais lamentar que o governo anterior nos tenha negado a transição mais elementar. Sonegaram informações básicas para a formulação de ações administrativas, atrasaram a tomada efetiva de decisões, prejudicando não um Governo que se inicia, mas a um povo inteiro que anseia por mudanças.Mas a Paraíba terá respeitado o direito que nos negaram, de saber como está o Estado que nos legaram.

Nenhum outro Governo em nossa história terá Saelpas ou Paraibans a vender. Diante de responsabilidades crescentes e recursos minguantes, estamos todos desafiados a inovar, a ousar, a compensar com a criatividade e a competência os recursos que já não existem: a Paraíba jamais nos perdoará uma administração convencional e de mesmices. Com esse modelo, apesar dos mais abundantes recursos de nossa história, avançamos tão pouco, nos últimos anos, que nossos vizinhos avançaram muito mais. Um Estado e um povo com nosso histórico de afirmações, nem viverá nem admitirá complexos nem estatísticas de inferioridades. A Paraíba não ficará para trás.

Peço, com muita humildade, a imprescindível colaboração da Assembléia Legislativa, fundamental para nosso desenvolvimento. Tenho a mais viva crença em que nossos deputados e deputadas, saberão entender que o voto não é apenas uma expressão de confiança, mas uma delegação de responsabilidades. O mandato da soberania popular confere a indiscutível prerrogativa da independência, gravada, no entanto, com o ônus irrecusável da co-responsabilidade pela solução de problemas e desafios, que são do Estado inteiro, não de um Poder ou de um Partido no Poder.

Peço, e peço com muita humildade, a colaboração indispensável de todo o funcionalismo público, sacrificado nos últimos anos em direitos elementares e indiscutível credor de atenções prioritárias. O Governo tem substituído aumentos lineares por gratificações pontuais, como forma perversa de dominação do corpo funcional, tornado-o refém desse incerto complemento salarial. O Estado adotará políticas que aumentem a auto-estima do servidor, não sua submissão ou sua dependência.

Peço, e peço com muita humildade e igual confiança, a colaboração de todos os paraibanos, para que hoje mesmo se inicie a grande cruzada contra o desencanto e a incerteza.Vencemos o medo do poder. Vamos vencer, também, o medo do futuro. Paraíba, paraibanos, de novo a esperança.

E, de novo, a gratidão. Agradeço a Deus, e o meu Deus tem nome, Jesus Cristo, que não me faltou com a fé nem nos momentos mais duros dessa caminhada de duros percalços.

Agradeço ao prefeito, amigo e irmão Cícero Lucena, tão solidário com nossa causa que a ela consagrou sua própria esposa, Lauremília, parâmetro de dedicação e solidariedade, mas sobretudo referência da preocupação social que marcará essa nova administração. O meu mais comovido agradecimento a Cícero,o Luceninha de todas as horas, de todas as agruras, irmão de projetos e ideais comuns, de sonhos e esperanças.

Agradeço do fundo do meu coração a todos quantos contribuíram para esse instante. Às centenas de Prefeitos e Vereadores, que enfrentaram com sua lealdade o risco mais concreto da retaliação mais odienta, castigados até por escolherem a mudança como seu caminho e a elegerem como sua esperança.

Agradeço as lideranças municipais e a todos os candidatos de nossa coligação. Aos que conseguiram se eleger e aos que a Paraíba oferecerá outra chance. A pregação de cada um, em torno de uma Paraíba melhor, ecoará em nossas ações.

Minha mais especial gratidão ao senador eleito Efraim Morais. Apesar de descrenças, ele acreditou. Em meio a intenso pessimismo, ele confiou. Por seu trabalho, seu talento e sua lealdade, fez-se um vencedor. E vitorioso, mais que um gigante, fez-se um aliado de todas as horas.

Agradeço, in memorian, a muitos que desejaram muito esse momento, mas que não puderam chegar a esse instante, mas que do lugar privilegiado que Deus lhe reservou por certo continuarão velando por nós. Refiro-me ao nosso Babá Gayoso e ao nosso Walter Benvenuto, que foram amigos, mais que companheiros. Foram testemunhas discretas de nossas angústias e apreensões, de alegrias e sonhos, de sorrisos e lágrimas, e há quase 20 anos comigo começaram a abrir as trilhas que nos conduziram até aqui. A Walter e a Babá, com nossas orações sinceras e a minha saudade mais doída, a certeza de que a vocês cabe uma parcela absolutamente intransferível desse momento.

Permitam-me ainda registrar um póstumo reconhecimento de justiça ao amigo Abdias Sá, um dos quadros mais lúcidos de nossa história recente. Que Deus permita que todos os governantes de nossa Paraíba tenham o mesmo espírito público e a mesma inatacável probidade do nosso querido Abdias. O destino nos privou de sua presença, mas a história nos animará com seu exemplo e sua esperança. Bendito, Abdias.

Do fundo do coração, agradeço a todos os paraibanos que no entusiasmo de seus cantos, na sinceridade de seus gestos, na espontaneidade de suas manifestações, multiplicam nossa responsabilidade, mas também ecoam a convocação para todos os que partilham conosco os mesmos sonhos. A todos os paraibanos, que irrigaram com suas lágrimas a nossa esperança e sustentaram com sua emoção a nossa fé, o meu mais comovido agradecimento.

Jamais esquecerei os que em meio a uma longa noite da mais exacerbada intolerância e da mais densa escuridão, tiveram a coragem de assumir as cores do amanhecer e anunciar a aurora. As lágrimas de uns não serão em vão; as cores de tantos não desbotarão.

Entre todos, mais que um agradecimento, permitam-me uma homenagem que resgata uma histórica dívida de justiça ao único paraibano que detém todos, rigorosamente todos os diplomas que a Justiça Eleitoral pode conferir, num Estado. Permitam-me agradecer e homenagear o ex-vereador, o ex-prefeito, ex-deputado estadual, ex-governador, senador e deputado federal eleito Ronaldo Cunha Lima, o único governador da história recente da Paraíba que conseguiu em pleito direto eleger seu sucessor. Com Ronaldo, pai e mestre, líder e amigo, aprendi a lição maior de que política é um sacerdócio, não um negócio.

As circunstâncias históricas impõem uma administração com outras prioridades, mas permita Deus que possam seguir-se, no Estado, os princípios que presidiram seu Governo. Mais ainda, que Deus me conceda, ao final dos próximos quatro anos, que se diga de mim o que a história registra a seu respeito e que se constitui num dos maiores orgulhos de qualquer homem público: ele mudou a Paraíba, mas não mudou. Ele não se deixou transformar nem envaidecer pelo Poder, que no entanto exerceu com a tolerância de poucos e com a dignidade e a probidade de muito poucos. Obrigado, poeta. Deus o recompense, meu pai.

A minha homenagem mais terna o meu mais intenso amor, a quem me baliza todos os passos com a mesma segurança e ternura com que me ensinou os primeiros. Obrigado, minha mãe pela presença de todas as horas, pelo apoio de todos os minutos. Dona Glória a vida inteira partilhou o marido, depois também o filho, e por seu comovente desprendimento pessoal, me ensina até hoje as mais preciosas lições de vida que o mundo me permitiu aprender.

Obrigado aos meus irmãos, que não podendo alongar as horas dos dias, se multiplicaram em dedicação e apoio, na mais pura doação, que só as verdadeiras famílias é reservado o direito de testemunhar.

São tantos os agradecimentos a registrar que, por mais que me estenda, mais ainda tenho a fazê-los.

Um agradecimento muito especial a todos os familiares, enfim, aos primos, aos meus tios muito queridos, a quem homenageio na pessoa de tio Ivandro e Fernando Catão, reconhecendo em todos a ajuda inestimável e o incomparável exemplo de vida.

Obrigado a Diogo, Marcela e Pedro, frutos do meu amor a Silvia, que desde cedo e mais que nunca partilham o próprio pai e aceitam de bom grado que, em vez de três, haja três milhões de filhos da mesma atenção e da mesma preocupação com o futuro.

O meu agradecimento e homenagem a Sílvia, companheira de todos os passos desta caminhada, o mais sólido e mais anônimo de todos os meus esteios, com certeza o meu porto mais seguro. Repito-lhe hoje, Sílvia, o que você mesma me soprou nos momentos do mais duro e doloroso sofrimento: a verdade sempre vence. A obra que você plantou no alto da Serra da Borborema sobreviverá a nossas vidas, talvez até a nossa própria memória, proclamando no sorriso das crianças de nossas praças e de nossos clubes de mães e no colorido dos ipês que o anonimato mais discreto pode produzir as ações mais visíveis. Você deu cores à aridez da terra, pintou de alegria o rosto de nossas crianças. Em cada Ipê o semear do seu amor, em cada flor a beleza dos seus gestos.A bondade sempre vence. Você venceu.

A missão de todos nós e de cada um de nós é mais que simplesmente ecoar o grito contra a opressão, o clamor dos que não tem voz e o inconformismo dos que não têm vez, mas querem um futuro: é nossa missão multiplicar sementes de justiça e ampliar o eco da mais viva esperança de é que é possível e é urgente construir um presente com cidadania, um futuro com esperança e um desenvolvimento com redistribuição. Amor, verdade, justiça e liberdade. É essa a obra maior que o presente nos exige e a história nos impõe e que, com sua infinita bondade, Deus nos permitirá construir. Pela Paraíba. E pelo Brasil.

Paz e Bem, neste e nos anos que vêem!