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  Documentos Importantes » EDITORIAL DO JORNAL O GLOBO

Jornal O Globo, quinta-feira, 20 de janeiro de 1983.

  EDITORIAL

A Dimensão Intelectual, política e humana do brasileiro José Américo de Almeida pode ser considerada, sem qualquer artifício retórico, acima do seu tempo e dos seus contemporâneos.

Escritor e homem público dos mais altos parâmetros, detentor de um currículo incomparável na comunhão de títulos políticos, administrativos e literários, essa figura forjada nos aços dramáticos do Nordeste quis ser acima de tudo um apaixonado da causa brasileira. Uma causa a que se filiou apostolarmente desde noviciado na Paraíba de João Pessoa e só terminaria na madrugada de 10 de março de 1980, em sua casa de Tambaú, sob a forma de uma morte física suave e remarcada de dignidade. “Está tudo terminado”, diria o personagem legendário, ainda com voz clara, para os que assistiam os últimos instantes de uma vida de 93 anos.

A homenagem póstuma que hoje está prestada a José Américo na antiga residência de Tambaú, onde se inaugura o seu mausoléu com a presença do Presidente da República, recorda todo o extraordinário papel representado na história do País, tanto pelo revolucionário de 1930 quanto pelo deflagrador da redemocratização brasileira em 1945, tanto pelo denunciador dos males nacionais e da tragédia das secas como pelo homem público que no Governo da Paraíba, no Ministério, no Congresso, empenhou o máximo dos seus esforços em favor de soluções realistas para os problemas do nosso desenvolvimento.

Ninguém terá conhecido melhor a realidade brasileira e, sobretudo, ninguém a incorporava tão entranhadamente no próprio sangue e na lúcida consciência. A vocação literária de José Américo, afinal Imortalizada na Academia Brasileira de Letras, começou mergulhando nas profundas e pungentes camadas dessa realidade, e dela jamais desertou.O seu romance “A Bagaceira”, de 1928, iniciou o ciclo nordestino da literatura brasileira e, segundo as autoridades críticas mais idôneas, ombreia com “Os Sertões” de Euclides da Cunha em nível de importância e de influência.

Lembrar José Américo de Almeida é ter em mente padrões de espírito público, de competência e de desprendimento que importa não somente cultuar, mas também trazer para a cena atual em termos de exemplaridade. Não houve documento de sua lavra – candidato à Presidente da República em 1938 ou Presidente da UDN, Governador do Estado ou Senador da República – que não merecesse a qualificação de obra-prima de competência. Orador admirável, cada palavra sua elevava-se pela riqueza do estilo e pela densidade da mensagem.

Ao tornar-se pela segunda vez Ministro de Estado do mesmo Presidente Vargas que lhe truncara a carreira política numa fase culminante, para isso tendo renunciado ao Governo da Paraíba, para o qual acabava de se eleger, José Américo passou por cima de todos os preconceitos e ressentimentos em troca de um gesto de grandeza política e patriótica que por si só valeria um monumento. Nesse episódio, como em todos os lances de sua prodigiosa biografia, ele foi um gênio, um democrata, um homem da altura do Brasil de hoje e de sempre.

                 (Data da inauguração do Mausoléu do Patrono da FCJA)

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